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sexta-feira, 5 de abril de 2013

Gota de solidão


A cada gota de chuva que cai, vem ao solo tampouco apenas a molhar,
quem sabe mais a lavar. Lavar com esperanças o reles esgoto
onde reside o rato predador 
pronto para nos abocanhar em nossa vulnerabilidade.
A água brande o espírito na solidão,
solidão bivalente, a muito amiga, agora degenerativa.
Momento mais propício para reclusão, preguiça e introspecção.

No momento agora a solidão tumular do humilde poeta
é lavada por gotas que não findam com a morte.
Fluxo natural, independente da minha ou da sua solidão,
até mesmo da mútua convivência e cooperação.
Pouco sábias são as retinas que pensam compreender
somente aquilo pelo qual se pode ver,
assim como um sorriso não revela angústia, 
um choro não revelará desprazer.

Refletir a cerca da solidão num dia cinzento e úmido
é em demasia perigoso, pensá-la por si só Implica ter uma autoconsciência 
para fugir a seu ardiloso labirinto.
Não fora a chuva causadora da tristeza, 
menos ainda o nublado e a gota de chuva,
tampouco fora o sol o motivo da alegria.
Deveras lembrar que uns preferem por hora e outra adentrar a caverna, 
enquanto que outros se comprazem somente em dela sair.

O teor pálido da tempestade também acalma,
momento em que se adentra o local de poucos, é propício ao âmago.
Enquanto o frívolo simulacro do sol lateja
na mente rotineira, implorando por exterioridade,
se esquece da pertinência de considerar a solidão natural.
Para que esta não corroa os ossos, como a ferrugem corrói o ferro.
Ainda que meditá-la seja tarefa árdua,
tão mais o é ignorá-la. Fazê-lo seria o mesmo que duvidar
que pela janela há de, no instante agora, gotejar?

Lucas Mendes

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Senso canino


Sociedade de cães selvagens, de caráter mal acurado,
permeada por pensamentos estagnados e perniciosos.
Interpretações por estereótipos, rigor esmagado,
Aquisição de conhecimento em vão, punições desonestas.
Mal capacitados são muitos, muitos pagaram e irão pagar por isso!
Chagas de uma ferida. Ferida que não se cura,
sociedade da iniquidade, senso comum  que perdura.
Ódio pela sensatez. Puro desconforto o pensar causa,
os olhos ofuscados não almejam  forma nítida
o passo na penumbra ganha em excessivo vislumbre.
A fuga almejada desse enclausuramento social,
é  ataca e repreendida pelos cães do habitual,
cães que montam a guarda repressiva do  ordinário
latido forte, imponente e pavoroso, professa o caos
transversalmente com sua indisciplina e mau adestramento.
Frente a uma simples ameaça não hesita em morder
crava os caninos nos que rompem os laços vulgares,
Poupa somente o dono, o líder e todo poderoso
Esse é o canil de meros cães organizados hierarquicamente
uns lideram e usufruem da abundância,
outros subordinam e provam da escassez,
uns comem filé mignon, outros ração.
Ensinam conhecimento simples e direto. O resto o instinto é quem guia.

O cão de raça nobre alude à matilha a respeito de um criador
o salvador da miséria canina,
a importância para além de meras mordidas e condição desproporcional.
É o fundamento por excelência.
Não poderia esquecer, por ventura, dos cães bondosos,
que se curvam ante os ferozes e destruidores,
olham com piedade,  um olhar baixo  e simplificado.
A repressão assusta-os em demasia, preferem não carregar o fardo do ataque,
privam-se das bocadas, estacam o nímio sangramento,
defendem-se no particularismo,
não fogem do mal maior e mais temido: a sarna.
A sarna é bem quista, mas não deveria, não por si só.
Está em excesso nos cães. – Como livrar desse mal?
Tantos cachorros perecem por conta desse mal quase invisível,
uma coceira estranha que surge e não se vê a causa,
mortal, que se não tratada prolifera pelo canil
e  leva dos mais fracos até os mais fortes a perecer.
Ela está extraordinariamente por todo lado. Dela os mais sábios cães correm.
No final serão ouvidos uivos de dor e pavor, choramingo desesperador
e toda matilha será tragada pela propagação do ácaro.
Ácaro que vive pela simples existência do cão, e morre em sua ausência.
Cão que convive com ácaro e sem ele quiçá sobrevive.

Lucas Mendes

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Meros desejos

Enquanto eu aqui rechaço minha ignorância
exaltando minha ânsia por conhecimento
prostrando-me infimamente perante a realidade,
muitos são também os que repudiam,
enjeitam a crueldade real a que pertencem
onde a exaltação não passa de mero
desejo básico próprio dos animais: o alimento.
Um simples prato de comida é o desejo daquela criança,
uma vida melhor ou a morte implora aquela mãe.

Paradoxo da práxis, deveras lastimável!
A vida é vista por diversas óticas. Os anseios talvez alcançáveis,
cada qual enxerga a seu modo.
Mas todos são portadores de retinas e globos oculares semelhantes
onde encontra a disparidade, então?
Enquanto isso eu aqui na minha arrogância por mais conhecimento,
e a criança por mais alimento,
o José da esquina suplica por uma chance.

Será a impossibilidade titular nesse jogo desonesto?
A possibilidade e seu contrário caminham lado a lado
Numa incessante corrida contra a razão final
– prélio humano que perdura.
Algo parece desconexo, as peças já não se encaixam.
Houvera autrora algum encaixe?
Separados por uma vida, presos a um anseio.

A prática é mesmo como ‘rocha dura’, resiste a golpes, ao calor e até ao ardor.
Mais brandos são os desejos, ora relevantes ora nem tanto.
Como? Não saberei dizê-lo. O núcleo dispare do real não pode ser exposto
senão pela depravação do ‘homo’ para com os seus,
movidos pela ânsia de desejar, desejo por uma certa efetivação particular.
E assim a contingência prossegue, o paradoxo ganha proporções

e ainda que alguns pereçam o desejo perdura.
Conhecimento, dinheiro, comida, roupas,
Trabalho, sucesso , felicidade. O homem se move por desejos,
Por esses também cessa, mata e morre.
Tudo para desfrutar da ânsia tão ansiada.

Seja pobre ou rico, índio ou pardo, alto ou baixo,
velho ou novo, crente ou incrédulo.
Unos são tão somente mediante desejos
O mesmo ato que une se dissolve,  quebra,

rompe como que laço mal feito.
Ruína contrastante da vida em bando que forte é,
e fraca pode se tornar a qualquer sopro do acaso,

onde favorecidos e desfavorecidos lutam.
Lutam por si, para si, para o bando. Lutam!

Lutam numa continua batalha teleológica.

Lucas Mendes

sábado, 29 de dezembro de 2012

Necessidade necessária?


Primeiro o sabor do leite
nos pequenos momentos
infantes do pequeno indivíduo
saciam as necessidades naturais.

Na fase mediana o calor do álcool
sacia necessidades dissolutas,
numa maximização tão elevada
ao ponto de frugais se tornarem.

Mais tarde isso já não é suficiente,
o presente estágio de coisas não permite
pequenas doses infames do liquido volátil,
o necessário se faz outro.

Ao passo que a experiência ocorre
muda-se a necessidade do
mais bem sucedido ser a
se adaptar  às adversidades naturais.

Incontáveis  coisas são criadas,
diversos são os modos de vida,
 mais Variados são os suprimentos advindos
da mistura complexa do racional com natural!

Mais assídua se torna a necessidade humana
conforme alimentada com a precisão
que se obtém no escalão da vida
que se faz mister.

São inúmeras as alternativas
para o alimento da necessidade
em sua pequena e escaldante jornada
sobre o  imenso planeta.

O que se pretende obter com isso
senão munir-se do melhor modo possível
para a batalha frente ao modo natural da vida,
que tende a durar a qualquer custo?

A necessidade é necessária  aos padrões
determinantes do homem na atualidade
ocorrente dos fatos, o necessário ao natural
está o provimento de tal condição.

O que for necessário será convertido
ao bem estar do homem, natural ou não,
somente o acaso e sua complexidade
o fariam diferentes e revogável.

A necessidade de antes, apropriada pelo homem,
jamais será a mesma em dias atuais,
não tem sentido enraizar  tal conceito, se
revisto e não necessário, provavelmente, se tornará.

Lucas Mendes

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Acerca dos louvores?


Não desejos louvores, louvores exaltam,
estaria eu pronto para me sentir tão complacente?
Mais bem quista tem sido a crítica,
O amargo da dúvida  que machuca atinge o âmago.
A dúvida juntamente com a curiosidade
se faz presente numa forma mais alarmada em alguns.
Alguns aceitam críticas, outros aceitam melhor louvores,
tantos outros criticam.
São variados os modos de encarar a realidade, ou cotidiano humano.
Porque então buscar uma certeza indubitável?
Qual a razão de prender-se nos grilhões do senso comum?
Contrapontos interessantes, muitas vezes descabidos.
-Ora contrários, ora semelhantes. Como poderia tal paradoxo?
Ter compromisso com a dúvida,
Parece interessante ao olhar do pobre poeta
ela causa os mais diversos efeitos no ser,
desde a loucura até maior das sanidades.
De antemão dizer que por meio dela se dará o conhecimento
ao pobre bípede, seria demasiado precipitado.
Há possibilidades e estas na devem ser esquecidas
são cruciais para tal questão. Não se pode garantir o pleno conhecimento
ou sua total ausência. A visão que vezes se esvai ao inconcebível
pode ser tão fadada ao fracasso quanto a sua completa falta.
O devir é fantástico, a contingência surpreende,
a dúvida enaltece a vida que pouco a pouco perece!
 

Lucas Mendes

sábado, 8 de dezembro de 2012

Iminente naufrágio


A tão famosa arte, arte semelhante a do navegar,
do capitão que tempestades vence ou com navio se esvai.
Arte dos chefes de Estado, do país, da universidade.
Os sumos representantes, deuses humanos em busca de interesses,
interesses pessoais ou públicos? Paralelos ou concorrentes?
-Comecemos olhando para o poder deles, quem sabe
não nos preocupando com seu grau, mas com a sede e a ânsia para
tê-lo e nele manter-se
O que realmente torna pessoas competentes para reger um órgão,
é  algo com o que as pessoas não têm se preocupado. E deveriam?
A demagogia, o fácil convencimento do público
banaliza e estigmatiza essa nação de um ponto a outro.
O fato de pensar o erro dessa estrutura
faz com que os cegos, presos no enclausuramento do sistema
exijam uma solução. Pecam! Fecham os olhos e viram as costas
e ainda obrigam-nos a solucionar o problema.
A complacência de um guerreiro politicamente correto
está nos atos impensados, imaturos e impetuosos
esses são os vulgos salvadores do estado.

Correm como que em uma bolha recheada de lâminas
voltadas para seu interior, o ímpeto é tão grande que batem,
cortam-se, batem novamente e cortam-se ininterruptamente.
Escapar não é fácil, há necessidade de certas sutilezas.
Porém  acreditam que aquele sangue derramado exerceu algum efeito.
E o maior dos inocentes crê veemente ser aquele gesto, mesmo que ínfimo,
o gesto sensato que promove a evolução dentro do presente estado de coisas.
O resultado como esperado é o não rompimento da bolha,
nem da parte quanto menos do todo.
O que fazer? Como alcançar seus alicerces?
Enquanto isso, mais e mais feridos.

São tempos de greves infinitas,  de movimentos desorganizados,
de lutas desenfreadas, de massas militantes
que desconhecem  a causa. Causa interessante no seu cerne,
mas falha na prática, falha por falta de preparo,
de entendimento histórico e teórico.
Falha por seu desespero de resolução,  promissor e iminente.
Em voga o que se encontra é o senso comum, o senhor das ações atuais,
aquele que dita as regras para seus escravos,
dita a importância das lutas, o interesse em conseguir algo a qualquer custo,
a experiência exaltada em detrimento do estudo,
o cotidiano como formador de guerreiros.
Esse é o senhor, mestre e eterno doutrinador do bando.
Aquele que cria verdadeiros combatentes de uma guerra,
guerra onde vantagem não se enxerga, onde o entendimento parece inóspito.
-Quanto altruísmo de nossos representantes, vislumbradores do combate,
da carnificina social. Nobres cidadãos. Regentes do senso.
A mudança é necessária, maiores parecem ser seus significados.
Se não deles de quem esperar?
A pressa atrasa, o caminhar é ineficaz. O que há de se fazer
com um barco que já não pode mais navegar?

Lucas Mendes

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Terra de demasiados feitos


Terra de várias culturas, terra de vários povos,
de índios, negros, bandeirantes.
de nordestinos, cariocas, paulistas,
mineiros, gaúchos e nortistas.
Terra de guerreiros. Terra de Drummond!
Terra herdeira da língua de Camões,
onde cresce a “última flor do Lácio”
Terra do samba! Terra grande e sofrida
Terra de pobreza e de miséria
de favelas, de revoltas
do futebol, do lazer e da celebração.
Terra do desenvolvimento,
Terra do povo esperançoso e trabalhador

-Terra de demasiados feitos!

Terra dos representantes corrompidos pela ganância
das afecções, afecções que não falam mais alto,
afecções que gritam! Gritam o clamor do domínio
Terra dos sedentos por dinheiro e poder
Terra tão comum e tão banal se tornou
onde os que cumprem seu dever político, são heróis.
Terra das greves desorganizadas, terra massificada,
de sensacionalismos e estereótipos
Terra de mudos e cegos.
Terra de bons frutos e de frutos podres!
Terra do dinheiro na cueca
em que a sujeira se acumula e dissemina
embaixo do tapete, tapete tão grande esse.
Terra do tapete pluralista e multicolor.
Terra chamada Brasil!

Lucas Mendes