A cada gota de chuva que cai, vem ao solo tampouco apenas a molhar,
quem sabe mais a lavar. Lavar com esperanças o reles esgoto
onde reside o rato predador
pronto para nos abocanhar em nossa vulnerabilidade.
A água brande o espírito na solidão,
solidão bivalente, a muito amiga, agora degenerativa.
Momento mais propício para reclusão, preguiça e introspecção.
No momento agora a solidão tumular do humilde poeta
é lavada por gotas que não findam com a morte.
Fluxo natural, independente da minha ou da sua solidão,
até mesmo da mútua convivência e cooperação.
Pouco sábias são as retinas que pensam compreender
somente aquilo pelo qual se pode ver,
assim como um sorriso não revela angústia,
um choro não revelará desprazer.
Refletir a cerca da solidão num dia cinzento e úmido
é em demasia perigoso, pensá-la por si só Implica ter uma autoconsciência
para fugir a seu ardiloso labirinto.
Não fora a chuva causadora da tristeza,
menos ainda o nublado e a gota de chuva,
tampouco fora o sol o motivo da alegria.
Deveras lembrar que uns preferem por hora e outra adentrar a caverna,
enquanto que outros se comprazem somente em dela sair.
O teor pálido da tempestade também acalma,
momento em que se adentra o local de poucos, é propício ao âmago.
Enquanto o frívolo simulacro do sol lateja
na mente rotineira, implorando por exterioridade,
se esquece da pertinência de considerar a solidão natural.
Para que esta não corroa os ossos, como a ferrugem corrói o ferro.
Ainda que meditá-la seja tarefa árdua,
tão mais o é ignorá-la. Fazê-lo seria o mesmo que duvidar
que pela janela há de, no instante agora, gotejar?
Lucas Mendes